A arte de enfrentar a barreira de linguagem

Meu grande desafio entre línguas

Meu nome é André, tenho 20 anos, quero ser médico e eu não sou fluente em inglês, assim como a maioria (sim, eu disse a maioria) dos brasileiros.

Essa ideia pode causar um estranhamento em uma era de forte integração e encurtamento de distâncias entre todo o mundo, mas é a minha, e talvez a sua, realidade.

Quando deixei o curso de inglês na sétima série não pensei que aquilo poderia me causar qualquer tipo de problema no futuro. Na realidade, deixar o curso não foi uma decisão fácil. Por dificuldades na escola achávamos lá em casa que seria a melhor opção, tolice.

Anos mais tarde, minhas experiências em outros países, mesmo que rápidas e puramente turísticas, me fizeram perceber um gap deixado em minha vida pela ausência de uma segunda língua.

Eu tinha ali o acesso ao mundo para que dele pudesse extrair as melhores experiências e era inibido. Tinha medo de arranhar um falso inglês e passar vergonha. Mais tolice.

Viagens e amizades internacionais

 
Certa vez quando estive na Alemanha, pra me comunicar com os amigos do meu irmão, chegava a sentir a necessidade de beber pra soltar o improviso, e isso porque eu nem imaginava o que viria pela frente.

No ano seguinte, quando fui morar na casa do meu tio tive a pior, e, concomitantemente, a melhor, experiência de choque linguístico da minha vida.

Meu primo ia receber em casa 3 amigos estrangeiros, o que significava conviver, por semanas, com pessoas que eu não conseguiria trocar nenhuma palavra enquanto sóbrio. Fugia ao máximo desse encontro até que se tornou inevitável.

Me sentia nu. Era como se faltasse algo tão fundamental em mim quanto as roupas. Recebia, na minha casa, pessoas que, por uma incapacidade minha, não conheceria como queria.

Estavam ali, naquela casa, tantas experiências, ideais, opiniões e sensações que eu era incapaz de assimilar com excelência. Estava nu, sem nenhum bolso pra guardar aquilo que dali sobrava. Só estávamos: eu, minhas barreiras e minha frustração.

Com o passar dos dias, até me soltei e arriscava umas construções, mas essa não é a maior vitória da história.

A percepção da necessidade de romper com as barreiras da língua foi um encontro marcado há anos com as sensações mais perversas da vida social humana. Minha impotência era meu único limite.

Depois dessa experiência fui perceber o quanto eu perdia.

Atrás da fadinha de rosa (meu irmão), sou eu. Sim, os gringos estão de fadinha também.

Nas despedidas agradeci profundamente aos amigos do meu primo, e agora meus também, pelo tapa que eles me deram como incentivo a ser bilíngue.

Como encaro o desafio

Como disse, quero ser médico, mas não qualquer médico. Pra ser o que quero ser, e ajudar todos os que quero ajudar, não posso me acomodar nas primeiras dificuldades que encontrei no meu caminho.

E o melhor é que essa história não tem fim. Está em construção. Ao partir desse princípio, só eu tenho o poder de modificá-la. O teclado é meu. Decido a cada dia correr atrás do prejuízo que criei. Escolho a cada dia martelar cada pedaço dessas barreiras que construí.

Estou longe do fim. Mas estou um passo à frente da ignorância. Nasci pra fazer do mundo um lugar muito melhor do que ele é. E não admito permanecer inerte a uma realidade que necessita de todo o meu esforço.

O mundo todo está ao meu alcance. Dominá-lo ou não só depende de mim.